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  • Foto do escritorIfigênia à Brasileira

Viva a República!

Boa leitura, mas se preferir ouvir, basta clicar sobre a foto que você será direcionado ao Spotify.


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Olá amigos, sou Marco Faustino, porta-voz de Dona Ifigênia, essa heroína às avessas que a força de acontecimentos acabou por construir. Venho, mais uma vez, contar a vocês como anda essa senhora após seu despertar depois de anos de silêncio involuntário.

Nessa semana, Dona Ifigênia ficou como nunca lendo jornais e revistas para se atualizar de nosso mundo, chegando até mesmo a ler artigos de revistas digitais da internet, auxiliada por seu médico. Ouçam um de seus comentários, enquanto ela falava com seus talheres, numa de suas refeições.


Adoro datas importantes, Doutor! Adoro ainda mais como sempre construímos histórias mentirosas em datas que precisam significar coisas engrandecedoras para a Nação. Acontece que a História não liga pra como aquilo será depois contado...

Pra esse momento, o que temos é a Proclamação da República! Um nome bem simpático para um evento de “pompa”, não acha?

Proclamação é literalmente uma “declaração pública e solene”. Só que “de solene” nada teve, e pra ser pública nós fingimos e “esquecemos” alguns detalhes.

Todos temos nossas histórias escondidas, não é Doutor? Você mesmo deve ter as suas, não? Aposto que mesmo alguém centrado, calmo e quieto como você já omitiu alguns detalhes que deveriam ficar só entre você e Deus… O bom dessa questão é que talvez Deus seja mesmo um fofoqueiro… Sim, pois elas sempre escapam de alguma forma. E não é diferente com essa data.

Se na independência tínhamos um príncipe com diarreia, nesta é hora de altas patentes militares ficarem sem ar. E nem foi por terem me visto bem vestida como eu costumava ficar, Doutor.

Nosso herói da vez estava de cama no que viria a ser o dia mais importante de sua vida, historicamente falando. Não conseguia respirar, faltava-lhe o ar como faltou para centenas de milhares de pessoas nos últimos meses, infelizmente. Mesmo com dispneia, e sendo íntimo de Pedro II, a República foi proclamada por Deodoro da Fonseca, que na madrugada daquele dia não tinha sequer a intenção de sair da cama. Monarquista e amigo do imperador que era, pouco antes havia afirmado que "os brasileiros estão muito mal educados para a República. Ruim com a monarquia, pior sem ela".

Muito influente Marechal, Deodoro que foi fortemente influenciado por Benjamin Constant, apesar de estarem em lados distintos no que se refere a ideologia, unidos por uma figura que nesse país começava a mostrar como seria recorrente: um jornalista golpista. Ali, Quintino Bocaiuva.

Às seis da manhã do dia 15 de novembro de 1889, Deodoro e o exército derrubam não o imperador, mas o presidente do Conselho de Ministros do Império, o Visconde de Ouro Preto, figura de poder do então governo e um forte crítico ao exército.

De volta à sua casa logo depois, ainda doente, Deodoro recebe visitas que lhe contam o que mudaria o destino do país. "No lugar do Visconde de Ouro Preto, o imperador colocaria Gaspar Silveira Martins"

Pronto, era o suficiente. Gaspar e Deodoro, uma década antes, tinham disputado as atenções de uma bela mulher, a viúva Baronesa do Triunfo. E Deodoro tinha levado a pior.

Temendo que seu rival no amor mais uma vez o colocasse para trás, Deodoro responde de sua cama: "Digam ao povo que a República está feita". Sim, mandou dizer, pois convencionou-se em nosso país de apenas avisar ao povo dos acontecidos.

A notícia do novo ministro não era verdadeira, o que significa, meu caro Doutor, que a República assim se fez: um golpe militar motivado por uma fake news e por ciúme.

A República seria provisória, até um plebiscito para o povo e tão somente o povo, decidir a forma de governo. Só que o plebiscito aconteceu apenas em 1993, apenas 104 anos depois! Vivemos mais de um século em uma república "provisória"...

Hoje é dia de reconhecer não Deodoro, ou Pedro II que foi embora sem reagir ou lutar. Muito menos é dia de reconhecer como uma fake news muda um governo. Temo que é, na verdade, dia de reconhecer a Baronesa do Triunfo como causa, uma mulher que rejeitou um militar e acabou ajudando a derrubar um império.

O que seria mais brasileira que essa história, Doutor? Me diga.

Viva a República!


E vivas também à Dona Ifigênia! Até o próximo.

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