top of page
  • Foto do escritorIfigênia à Brasileira

Saudade das Nuvens

Boa leitura, mas se preferir ouvir, basta clicar sobre a foto que você será direcionado ao Spotify.


mosoianu-bogdan-eY1_nQs9aNI-unsplash

Olá, sou o Marco Faustino, o porta-voz de Dona Ifigênia, e estou de volta para contar a vocês como anda essa senhora após seu despertar. Na última semana, Dona Ifigênia ficou esperando pelas nuvens de chuva com as quais ela costuma conversar, mas estranhamente elas não apareceram. Decepcionada, ela foi conversar com o seu médico mesmo.


Não tem chovido muito agora, não é, meu caro Doutor? Ao menos não chove como costumava. E quando chove, pode ser muito mais do que o esperado, inundando tudo e trazendo mais tragédias. Não sou especialista nisso, afinal não é minha área, mas pelo que andei lendo, isso tem sido muito comum nos vários âmbitos climáticos do planeta, não é mesmo? E olha que a observação é de uma senhora trancada por tempos num lugar isolado.

Entendo que a sua geração já ouve falar disso faz tempo, meu querido Doutor… Mas as próximas, se é que teremos mesmo muitas outras, ouvirão cada vez mais. Insistimos em fingir que as nuvens de chuva não aparecerem é só uma questão de momento. Insistimos em fingir que a última década ter sido a mais quente dos últimos 125 mil anos na Terra, é apenas um dado. Insistimos em muitas coisas, menos nas que importam… Quem dera a teimosia “tipicamente brasileira” que justifica um povo “não desistir nunca” fosse usada pra fazer algo contra a massiva destruição do nosso meio ambiente.

Doutor, esperei dias pelas nuvens de chuva… para avisá-las que alguns lugares no nosso país estão com mais saudade delas do que outros. Só que o tempo anda confuso demais. Elas não vêm quando normalmente vinham, e quando aparecem, não somem quando esperávamos.

A seca que o sul do país tem enfrentado não é algo tão inesperado, visto que a emissão de carbono dos últimos trinta anos foi 50% do montante dos últimos trezentos. Em outras palavras: nós cavamos um grande buraco no chão e quando caímos nele dizemos que a queda foi uma surpresa?

Ondas de calor no Canadá, enchentes inéditas na Alemanha, seca por boa parte do Brasil… Todos são acontecimentos inusitados, é claro. O que gostamos é de superar os recordes do passado, até nos dados ruins, não de aprender com eles.

O problema da queda no buraco, Doutor, é que você sozinho não precisa cavar pra cair nele, basta que alguém o tenha feito anteriormente. Estamos todos em queda livre, mas quem lucrou com a escavação tem como construir uma escada. Mas e os demais?

Muita presunção é ficar dizendo que estamos destruindo o mundo. Ele continuará, de uma forma muito mais lamentável, mas continuará. O planeta é muito poderoso. Imagine só! Estamos apenas destruindo as condições que nos mantêm vivos nele. Condições que só encontramos aqui neste lugar, até agora. Talvez Andrômeda tenha um planeta parecido que possa nos acolher, mas é um pouco longe, não?

Nós usamos tudo que esse chão pôde nos dar, e ao invés de tentar preservá-lo, vamos dizer que deu errado e apenas fingir que nosso tempo acabou? Quem acelerou esse relógio não pode culpar o ponteiro por mostrar o tempo. Infelizmente é isso que fazem aqueles que querem negar a urgência da situação.

É chegada a hora de mudar, Doutor. Ou minhas amigas nunca voltarão pra conversarmos como de costume… Sem elas, não é só a conta de luz que ficará insustentável. Os líderes mundiais são eventuais, temporários. O solo que lideram é que não é.

Se o buraco já está cavado, a culpa não é do chão que cedeu. Ele não se reconstruirá sozinho.

Ou nos preparamos para preenchermos esse vazio escavado, ou haverá lugar para todos nós nele. Para quem cavou e para todos os demais que caírem.


E você, concorda com esses comentários que Ifigênia fez a seu médico? Em que medida eles estão alinhados com temas que estão sendo discutidos atualmente? Teça seus comentários também no canal de Ifigenia. Até o próximo.

Posts recentes

Ver tudo
bottom of page