top of page
  • Foto do escritorIfigênia à Brasileira

Pátios da Loucura

Boa leitura, mas se preferir ouvir, basta clicar sobre a foto que você será direcionado ao Spotify.

Olá, eu sou Marco Faustino, o porta-voz de Dona Ifigênia. Hoje ela vai trazer um tema diferente do que ela comentou até aqui, mas tão importante como os demais. Foi depois de ler um artigo de uma revista sobre hospitais psiquiátricos, que ela comenta com o seu médico:

"Doutor, olha que interessante. Agora as pessoas aqui do seu tempo discutem mesmo sobre a validade da existência de manicômios e outras instituições de internação. Que interessante! É por isso que me disse várias vezes que esse “hotel” onde eu vivo iria fechar? Deve ser por isso.

Nosso país sempre foi muito fecundo na geração de lugares assim, meu querido. Quando eu tinha sua idade participei de um grupo que exigia o fechamento de um lugar assustador lá no interior de Minas. O Colônia lá de Barbacena, um manicômio. Já ouviu falar, não? Com certeza sim. Estive naquele lugar duas vezes para conhecer a situação. Isso foi um pouco antes de eu ter sido “excluída do mundo”. Aquele manicômio era um verdadeiro depósito de gente. Um amontoado de farrapos humanos, desprezados e na maioria esquecidos que estavam empilhados lá, esperando a morte. Gente que a “bondosa e complacente sociedade brasileira”, de alguma forma queria deixar de lado. Lá havia de tudo: perseguidos políticos, mendigos, alcoólatras, viciados em drogas, homossexuais, desajustados e até alguns loucos também. Dizíamos que um campo de concentração nazista poderia até ser mais confortável para os moradores. Quem entrava dificilmente conseguia sair. Só mesmo quando morria que então recebia a “alta celestial”, como costuma-se falar na época. Nem vou dar mais detalhes das coisas que estávamos descobrindo por lá, porque isso pode maltratar sua sensibilidade.

E isso tudo acontecendo na aprazível cidade mineira de Barbacena. Pelo que vi, hoje vocês têm muitos trabalhos publicados sobre o local, incluindo livros! Que bom que andaram revisitando aquele lugar. Se não leu ainda, deveria ler, Doutor!

Aliás, você é muito quieto. Fica o tempo todo me medindo aí com esse seu olhar. Sem nada dizer. Posso saber o que passa em sua cabeça, meu querido?

Pessoas muito quietas costumam ser encaradas como estranhas, não? Isso ainda hoje não mudou? Você sabia que, dependendo da situação, pessoas como você poderiam ser tratadas como “muito estranhas” em época não muito distante? E algumas delas acabavam até parando em lugares como este aqui, onde eu acabei vindo parar, ou serem até enviadas lá para Barbacena mesmo.

Falando nisso, me diga uma coisa: por que razão você decidiu ser médico de loucos? Sim, pois a psiquiatria ainda tem essa conotação, não? Por acaso isso é uma definição desajustada para os dias atuais? Por acaso você já foi tachado de desajustado? Me diga com sinceridade, pois estamos abrindo o coração um para o outro: alguma vez na vida teve medo de ser internado em lugares desse tipo? Será por isso que você decidiu ser médico então? Para poder entender suas próprias loucuras? Ou foi para se defender melhor delas? Qual o motivo doutor?"


Pois é! Nossa Ifigênia estava demais hoje, não? E que assunto complicado que ela comentou com seu médico, concordam? Coloquem também suas considerações sobre o tema. Até o próximo episódio.

13 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
bottom of page