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  • Foto do escritorIfigênia à Brasileira

Feliz Natal, Papai Noel!

Atualizado: 18 de jul. de 2022

Boa leitura, mas se preferir ouvir, basta clicar sobre a foto que você será direcionado ao Spotify.


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Olá. Sou Marco Faustino, porta-voz de Dona Ifigênia, essa senhora que sempre nos alfineta com suas questões. Nesta semana, ao passar pelo seu quarto, o médico encontrou uma carta que Ifigênia escreveu para Papai Noel. Inicialmente ele achou estranho, mas depois, lendo o conteúdo, ele compreendeu a mensagem. Escutem só o que ela escreveu.


Querido Papai Noel, tudo bem com você?

Primeiramente, feliz Natal! Mais um ano se passa e ainda não entendi como não sente calor usando assim tanta roupa no verão. Por que você nunca partiu para uma tropicalização de suas atitudes, hein meu velho? Teria feito muito bem a você.

Esse ano eu não direi que fui comportada, Papai Noel. Não direi porque não existe a possibilidade de se comportar bem vivendo nesse país.

Você sabe que faz muitos anos que estou presa por aqui, nessa clausura de meditação que é o manicômio em que habito. Fique tranquilo que não venho pedir para sair. Sei que isso foge um pouco da sua alçada, mas também é porque percebi há muito tempo que não é esse tipo de liberdade que procuro. O fato é que, mesmo “enclausurada” aqui, eu não me comportei como em alguns anos anteriores.

Existe um pouco de “Ifigênia” em cada um dos brasileiros, ainda mais quando as coisas estão pesadas e depressivas como no momento em que vivemos. Esse ano eu voltei a reclamar, Papai Noel. E quando uma senhora como eu reclama, alguém há de ouvir. Isso acorda outras reclamações e, consequentemente, tenho um pouco de “culpa” em cada manifestação justa que possa eclodir em nosso solo.

Desde o primeiro dia do ano, quando não tínhamos vacina para a pandemia, nem oxigênio para os pacientes, já era impossível respirar tranquilamente nessa terra.

A história sempre demonstrou como essa ladainha sobre um povo empático é mentirosa, mas tivemos nos anos de 2020 e 2021 a maior das provas, o cenário ideal pra desmascarar séculos de mentira.

Não bastasse a já grande pilha de mortos que o ano passado nos deixou, esse ano não houve comoção nem quando chegamos a um pico de quatro mil dos nossos nos deixando diariamente. Parecia que nada de diferente estava acontecendo, que não eram pessoas com histórias, aspirações e famílias. Eram apenas números crescendo todos os dias nos noticiários. Diziam que a vida não podia parar, mas para seiscentos mil dos nossos, ela parou sim.

A vida parou porque enquanto ela poderia ser salva, o que importava era aumentar um dólar a dose; porque enquanto ela poderia ser salva, o que importava era como o mercado reagiria; porque enquanto ela poderia ser salva, ela simplesmente não importava muito. Somos craques não só no futebol, mas em deixar tragédias mais que anunciadas acontecerem, e depois, em passar o resto da vida apontando o dedo para um outro culpado.

Desde maio minha voz tem sido ouvida por aí, e não canso de abrir discussões que importam a todos nós. Por esse lado, tive um ano mais agradável. Daqui de dentro, eu posso finalmente falar para todos, como era antes de me encerrarem aqui. Não é um momento de censura como vivi anos e anos atrás, ao menos não ainda. Então, que usemos todos os canais possíveis para impedir que as vozes de bom-senso desse país sejam trancafiadas e esquecidas, ficando longe de tudo e todos que possam fazer alguma diferença.

Neste Natal, eu peço apenas para que o senhor não desista de nós. Muito aconteceu e não temos muitos motivos para nos orgulhar, mas o ano passa, os governantes passam, e o povo, de algum jeito, fica. E é por ele que eu peço pelo menos que você traga esperança. Sim, desejo um olhar de esperança para nosso povo.

Entende, querido Papai Noel? Eu adoraria ganhar presentes, como todo ano adoramos. Mas se for pra ganhar algo por ter se comportado em meio a esse caos, eu honestamente prefiro estar ao lado dos que não merecem um Natal farto. Deixe a minha árvore enfeitada, mas sem nada por baixo. Ter a minha idade neste cenário e chegar viva em mais um Natal já é o suficiente.

Espero que você tenha tomado muito bem seus cuidados com a pandemia, Papai Noel. Afinal, você também é da terceira idade. E que também tenha se vacinado direitinho, do contrário, pode ser que as chaminés não deixem você entrar.

Com a preocupação habitual, Ifigênia.

Feliz Natal a todos vocês, ouvintes.


E com essa última mensagem do ano de Dona Ifigênia, nós encerramos nosso ciclo de podcasts de 2021. Um ótimo Natal a todos e que o ano de 2022 traga muita esperança, como é o desejo da própria Dona Ifigênia.

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